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30/Apr/2026

Armazenagem: R$ 148 bilhões para zerar o déficit

A produção brasileira de grãos cresceu a passos largos nos últimos anos, mas a capacidade de armazenar os volumes não acompanhou este ritmo. A Kepler Weber, maior companhia do setor na América Latina, estima que o País precisaria de R$ 148 bilhões em investimentos para conseguir comportar tudo que será colhido nesta safra e zerar o déficit de 135 milhões de toneladas que devem ficar sem espaço para armazenamento. “O Brasil já tem cerca de 19 mil unidades armazenadoras e produz por ano entre 1,5 mil e 2 mil, a depender do tamanho e capacidade. Precisaríamos de mais 5 mil a 7 mil (para zerar o déficit)”, calcula Bernardo Nogueira, CEO da Kepler. Isso significa que seria necessário fazer um trabalho de cinco anos de uma vez, para acabar com os gargalos existentes. A projeção da empresa sobre o investimento necessário considera os dados da consultoria Cogo para a produção de grãos, estimada em 357 milhões de toneladas para 2025/26.

A capacidade estática para armazenagem no País, porém, atende a 223 milhões de toneladas. O restante fica sujeito a práticas de armazenamento a céu aberto ou venda imediata para liberar espaço nos silos, o que limita a possibilidade de arbitragem de preços e eleva os custos de transporte nos períodos de pico de escoamento. Nogueira observa que o avanço anual da capacidade estática de armazenagem é de 2,4%, abaixo do necessário para suprir a demanda, já que a safra de grãos tem crescimento médio de 4,4% ao ano. Mato Grosso, líder na produção no Brasil, concentra a maior quantidade de unidades armazenadoras. Outro fator que eleva a despesa da cadeia é o baixo nível de reserva da produção dentro das fazendas. Citando dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o CEO da Kepler Weber comenta que somente 16% das unidades armazenadoras estão dentro das propriedades rurais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, este percentual chega a 65%. Até mesmo na Argentina, a capacidade de armazenar “dentro da porteira” é de 40%, de acordo com o executivo. “Acredito que isso vai mudar na próxima década (no Brasil), porque a nossa agricultura é muito jovem. A maioria do Cerrado brasileiro tem agricultores que estão na primeira ou segunda geração. Nos Estados Unidos, as fazendas estão na quarta geração de famílias, muitas vezes com mais de 100 anos produzindo na mesma área”, afirma Nogueira. “Armazenar longe das propriedades aumenta o custo de deslocamento da produção até as cerealistas, tradings, cooperativas, onde está a maior parte da capacidade estática aqui”, acrescenta. A percepção de Paulo Bertolini, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem de Grãos da Abimaq, é semelhante à do CEO da Kepler.

Ele comenta que a produção nacional de grãos cresceu, em média, 10 milhões de toneladas por ano, nos últimos dez anos. No mesmo período, a capacidade estática avançou 5 milhões de toneladas anualmente. “Se considerar os equipamentos, frete, energia e outros custos, a despesa é de R$ 1,5 mil por tonelada de capacidade estática construída. Então, só para acompanhar o ritmo de crescimento da produção de grãos, sem diminuir o déficit existente, seria preciso investir R$ 15 bilhões por ano em armazenagem”, diz Bertolini, que também é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho). Na atual conjuntura, onde os juros estão elevados, o acesso a financiamento bancário é restrito e as margens dos agricultores estão apertadas, “não vemos um horizonte sobre quando haverá o retorno dos investimentos de longo prazo”, admite Bertolini. Para ele, a indústria pode produzir mais silos, tem capacidade ociosa, mas “o que falta é crédito”.

Na visão do CEO da Kepler, para mudar o cenário, seria necessária uma melhora na rentabilidade da cadeia. Recuperação nos preços das commodities e queda nos juros acelerariam o processo de retomada de investimentos em armazenagem. “Algo que tende a ajudar muito é a industrialização da agricultura. A tendência do Brasil é se tornar cada vez mais relevante em biocombustíveis e isso demanda armazenagem para matéria-prima. Já era uma demanda latente, e o biocombustível se torna ainda mais importante nesse contexto de conflito (no Oriente Médio)”, pontua Nogueira. Durante a Agrishow, maior feira de tecnologia agrícola da América Latina que ocorre nesta semana, em Ribeirão Preto (SP), o executivo diz que tem notado um volume de negócios interessante. “A necessidade de maior eficiência é notória e, ainda que estejam passando por um momento desafiador, os clientes precisam investir”, comenta o CEO da Kepler. Fonte: Globo Rural.