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04/May/2026

Terras Raras: entrevista Ricardo Grossi-Serra Verde

A mineradora brasileira de terras raras Serra Verde ganhou projeção internacional ao ser adquirida em abril pela norte-americana USA Rare Earth em um negócio de US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões). Com isso, passou a integrar uma gigante que se torna alternativa de suprimento do mineral estratégico no Ocidente e passa a ter acesso às tecnologias de processamento desse material. Atualmente, 90% do processamento de terras raras (separação, refino e fabricação de superímãs) ocorre na China. Alguns dos 17 elementos, como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio, são considerados estratégicos, com aplicações industriais e no setor de defesa.

O suprimento dos óxidos de terras raras tem sido alvo de disputa geopolítica entre Estados Unidos e China pelo domínio desse material estratégico. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras, equivalentes a 23% do total global, pouco atrás da China. Mas a exploração no País é ainda ínfima. Há cerca de 150 pedidos de exploração, após mais de 1,4 mil autorizações de pesquisa concedidas pela Agência Nacional de Mineração (ANM). A Serra Verde, que tem os quatro tipos de óxidos, é a maior em operação fora da Ásia. Com financiamento de US$ 565 bilhões obtido em fevereiro de uma agência norte-americana, a DFC, planeja alcançar produção de 6,4 mil toneladas de óxidos em carbonato de terras raras até o final de 2027.

Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde, disse, em entrevista, que a empresa é o projeto que está abrindo as fronteiras do Brasil e Ocidente, o que deu certo fora da Ásia. A empresa combinada (Serra Verde+USA) terá 50% do total da produção de óxidos fora da China a partir de 2028. O acordo, segundo Grossi, tem um fator-chave para quem atua nesse segmento da mineração: preço mínimo e garantia de compra por 15 anos por uma trading criada especificamente para comercializar os materiais. "Até dois anos atrás, tínhamos de vender 100% para mercados com preços extremamente voláteis e não tínhamos acesso à tecnologia. Agora isso mudou", afirma. "Esse acordo pavimenta um caminho para projetos que poderiam não ser viáveis no passado e agora passam a ser." Segue a entrevista:

Como o sr. explica esse grande negócio envolvendo a mineradora?

Ricardo Grossi: É mais que um grande negócio. Fico muito feliz por colocar o Brasil como um grande hub (plataforma) global de terras raras, com participação expressiva, estratégica, nessa cadeia produtiva e de suprimento de elementos de terras raras. O negócio cria uma alternativa no Ocidente de terras raras, dos superímãs e suas aplicações. Esse acordo com a USA Rare Earth nos permitiu isso.

Qual a importância dessa aquisição?

Ricardo Grossi: É um acordo com um modelo de precificação diferente, positivo para os produtores. Isso pavimenta um caminho para projetos que poderiam não ser viáveis no passado, e agora passam a ser. Estabelecemos um valor mínimo de preço para os quatro elementos principais (de terras raras) que nos permite ter previsibilidade na geração de caixa e nos investimentos. " há um mercado extremamente volátil e ao mesmo tempo centralizado e controlado por um país. Como fazer um business igual ao nosso para mais 20 anos? Então, trouxe estabilidade financeira.

Qual o segundo ponto?

Ricardo Grossi: Estamos envolvendo nessa operação quatro países: Brasil, Estados Unidos, França e Reino Unido. Toda a estrutura criada nos dá opções e acesso à tecnologia, o que antes não tínhamos condição de fazer e de desenvolver. Por isso, essa corrida de buscar as alternativas. " essa tecnologia ainda não está disponível em escala.

E sobre o mercado de produtos de terras raras?

Ricardo Grossi: Sim, estamos criando um novo mercado. É um mercado que não existe no Brasil, apenas em poucos países. Temos atualmente dois grandes produtores no mundo: um nos Estados Unidos, a MP Materials, e um na Austrália, a Lynas. Com o acordo, estamos criando um mercado no Brasil. A Serra Verde já agrega valor. Esse é outro ponto muito importante.

Como é essa agregação de valor da Serra Verde?

Ricardo Grossi: Vimos notícia recente de uma exportação do Brasil de minério bruto de monazita (que contém terras raras). A Serra Verde não exporta minério bruto. A empresa investiu bilhões de reais em uma planta de produção de carbonato de terras raras, que já tem um valor agregado muito maior do que o valor de um minério. A gente poderia ter investido somente em equipamentos de mina e em poucas instalações e vender minério. Seria um negócio, mas não o que a Serra Verde escolheu. Quis ressaltar esses pontos porque fica parecendo que estamos exportando minério sem nenhuma agregação de valor, o que não é fato.

Qual o principal benefício de integrar uma estrutura industrial que vai da mineração de terras raras à fabricação dos imãs?

Ricardo Grossi: Do ponto de vista de estratégia, passa a participar de todos os mercados dentro da cadeia produtiva. Esse é o primeiro ponto. Tem flexibilidade para atuar em todas as fases da cadeia desse negócio. Traz sinergias, possibilidades dentro da dinâmica de mercado (resultado e desempenho melhor), podendo se ajustar conforme a demanda. Isso é estratégico. Cada etapa desse processo tem uma margem de ganho, uma geração de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Passa a ter todos esses processos nas mãos. Para empresa é muito bom financeiramente, e também para os países onde atuamos.

Esse negócio acelera o plano de aumento da capacidade que a Serra Verde quer atingir até o fim de 2027?

Ricardo Grossi: Quando recebemos o funding (financiamento) em fevereiro da agência americana International Development Finance Corporation (DFC), já era o nosso objetivo. O que o acordo traz é a segurança econômica de venda do produto. A diferença é que, agora, há uma garantia na outra ponta, que é a geração de caixa, com o contrato de obrigação de compra da produção (offtake) de 15 anos, com preços mínimos para os quatro elementos: neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Para neodímio e praseodímio, US$ 110 o quilo; disprósio, US$ 575; e térbio, US$ 2.050.

Esses preços são suficientes para gerar capacidade financeira à empresa?

Ricardo Grossi: Não deixaremos de acessar valores no mercado spot, mas a empresa tem uma garantia mínima, calculada e negociada para dar sustentabilidade. Não adianta ter o melhor ativo mineral, as melhores pessoas, a melhor tecnologia, se lá na ponta enfrenta um mercado muito volátil, muito instável. Muitas vezes acorda gerando caixa e vai dormir com caixa negativo.

O que significa esse acordo para o Brasil na cadeia industrial de terras raras?

Ricardo Grossi: O primeiro e principal ponto é que cria um novo mercado. Segundo, gera estabilidade e previsibilidade de preços, o que dá sustentabilidade a um negócio. Na mineração, estamos falando de mais de 20 anos, por isso, traz uma tranquilidade. Terceiro, o Brasil passa a ser uma plataforma, um grande fornecedor de terras raras consolidados no Ocidente. Quarto ponto: acesso a tecnologias, um ponto extremamente relevante, pois se trata de um mercado muito difícil de entrar. Quase tudo que se sabe desse negócio está concentrado em um país só (em referência à China), com tecnologia desenvolvida desde 1992.

Fonte: Broadcast Agro.