ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

04/May/2026

Máquinas: entrevista Luis Felli-Massey Ferguson

O produtor rural brasileiro vive um momento de forte incerteza, que tem levado à postergação de decisões de investimento, especialmente na compra de máquinas agrícolas. A avaliação é do head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO, Luis Felli, que também atua como produtor rural no Maranhão e no Vale do São Francisco. Em entrevista, Felli descreve um cenário que vai além da chamada "tempestade perfeita": são pelo menos cinco fatores simultâneos pressionando a renda do produtor, juros elevados, queda das commodities, valorização do Real, alta de fertilizantes e aumento do diesel. Apesar disso, ele ressalta que o agro segue estruturalmente sólido, com baixa inadimplência histórica, ainda que mais pressionado no curto prazo. O executivo também aponta perspectivas mais positivas para o milho no segundo semestre, avalia os limites das políticas públicas no atual cenário fiscal e aposta em ganho de participação da Massey Ferguson mesmo com retração do mercado de máquinas. Segue a entrevista:

O senhor também é produtor rural. Conte um pouco da sua operação e como isso influencia sua visão do setor?

Luis Felli: Sou produtor, sim, e isso acaba influenciando muito a forma como eu enxergo o negócio, porque eu vivo na prática aquilo que o agricultor enfrenta. Eu produzo soja, milho e sorgo no sul do Maranhão, além de trabalhar com pecuária - recria, engorda e confinamento - também na região. E tenho uma operação de uvas no Vale do São Francisco, em Petrolina, com cerca de 92 hectares e aproximadamente 450 funcionários. São realidades bem diferentes entre si. No Maranhão, por exemplo, eu trabalho bastante com integração lavoura-pecuária, uso braquiária, faço feno. Já no Vale do São Francisco, é uma agricultura irrigada, intensiva em mão de obra. Essa vivência em diferentes sistemas produtivos ajuda muito a entender que não existe um "produtor padrão" no Brasil, cada realidade tem seus desafios específicos.

E como foi a safra na sua operação este ano?

Luis Felli: Foi um ano positivo, principalmente do ponto de vista climático. Choveu bem, o que já é meio caminho andado. Mas tivemos um atraso na janela de plantio, o que exigiu ajustes importantes. Eu sempre procuro plantar dentro da janela ideal, mas este ano ela simplesmente mudou. Diante disso, tivemos que adaptar o planejamento: reduzimos área de milho e ampliamos o sorgo, porque ele tem um ciclo cerca de dez dias mais curto. Isso permite mitigar parte do risco quando a janela encurta. Ainda assim, não dá para fazer tudo - tivemos que reduzir área em alguns casos. Agora estamos na expectativa de mais uma chuva para fechar bem a safrinha. Mas, no geral, foi um ano bom, dentro das condições possíveis.

Qual é o "termômetro" que o senhor está vendo na Agrishow, no contato com produtores?

Luis Felli: O termômetro hoje é a incerteza. E isso é muito relevante, porque quando o produtor está incerto, ele não toma decisões importantes - e investir é uma decisão importante. Então ele posterga. Você tem um cenário bastante complexo. Primeiro, juros elevados há cinco anos. Estamos falando de uma atividade intensiva em capital; o produtor precisa de terra, máquina, insumos, e muitas vezes de rebanho. Com juros em dois dígitos por tanto tempo, isso pesa muito. Além disso, você tem queda nos preços das commodities, valorização do real - que reduz a receita em reais -, aumento de fertilizantes, especialmente nitrogenados, e alta do diesel. São vários fatores atuando ao mesmo tempo. E ainda existe uma heterogeneidade grande entre produtores. Quem segurou a expansão nos últimos anos hoje está mais capitalizado. Quem continuou crescendo muitas vezes está mais alavancado. Então você tem situações bem distintas dentro do campo.

E a inadimplência? Há preocupação maior hoje?

Luis Felli: Existe uma percepção de aumento da inadimplência, mas é importante colocar em perspectiva. A inadimplência no agro sempre foi historicamente muito baixa, muito menor do que em outros setores da economia. Então, quando ela sobe um pouco, isso causa estranheza no sistema financeiro, que estava acostumado a níveis muito baixos. Mas eu não vejo uma situação generalizada de inadimplência. Existem casos pontuais, regiões que sofreram mais, produtores mais pressionados, mas a grande maioria ainda está saudável. O que acontece é que essa combinação de fatores cria desconforto e cautela. Não é uma crise estrutural, mas é um momento delicado.

O endividamento está sendo determinante para travar investimentos?

Luis Felli: Ele pesa, mas, na minha visão, o fator determinante é a taxa de juros. Existe uma análise bastante interessante que diz que, quando o juro real passa de 4%, o produtor para de investir. Hoje estamos muito acima disso. Então, mesmo quem não está excessivamente endividado evita tomar crédito, porque o custo do dinheiro está muito alto. Isso explica, por exemplo, por que linhas como o Finame não estão sendo totalmente utilizadas - coisa que, em anos anteriores, esgotava rapidamente.

Ou seja, mais do que o estoque de dívida, o que está travando o investimento é o custo do capital.

E o que o senhor espera do próximo Plano Safra?

Luis Felli: Acho que precisamos ter uma visão realista. No cenário fiscal atual, não há espaço para uma redução significativa das taxas. Se houver alguma queda, deve ser marginal, de meio ponto, um ponto porcentual. Isso ajuda? Ajuda, mas não muda estruturalmente a decisão do produtor. O problema não é o subsídio em si. A agricultura empresarial não precisa de subsídio - precisa de uma taxa de juros estruturalmente mais baixa no País. Se tivéssemos uma taxa básica de 6%, 7%, o produtor acessaria crédito a 8%, 9%, e o sistema funcionaria melhor, sem necessidade de grandes subsídios. Mas isso depende de ajuste fiscal, de controle de despesas. Não tem solução mágica.

Medidas como a linha da Finep e a renegociação de dívidas podem mudar o cenário?

Luis Felli: Se funcionarem, ajudam bastante. Mas há desafios importantes. No caso da Finep, que foi anunciada no domingo (26) pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, com recursos de R$ 10 bilhões, por exemplo, existe a exigência de inovação. Então precisamos entender como isso será aplicado às máquinas agrícolas - o que exatamente será considerado inovação. Além disso, nem todos os bancos estão habilitados a operar essa linha, o que limita o alcance. E credenciar novos bancos leva tempo.

Na questão das dívidas, o agro mudou muito. Hoje a maior parte do financiamento vem do setor privado. Então qualquer solução precisa envolver também esses agentes, não só recursos públicos. É possível avançar? É. Mas o grande desafio é fazer isso acontecer a tempo de beneficiar o próximo ciclo agrícola.

Como o senhor vê o cenário para grãos e renda do produtor nos próximos meses?

Luis Felli: Eu vejo o milho com uma perspectiva mais positiva. A segunda safra pode ser menor em algumas regiões, por causa do atraso das chuvas e do risco climático, e a demanda está crescendo - tanto para proteína animal quanto para etanol de milho. Hoje já vemos preços melhores do que há um mês, e a tendência, na minha visão, é de melhora no segundo semestre. A soja é mais incerta, porque depende muito do cenário global, câmbio, demanda. E ainda temos fatores climáticos, como o La Niña, que podem reduzir a produtividade. Mas, no geral, eu diria que o segundo semestre tende a ser melhor do que o momento atual.

E o mercado de máquinas agrícolas em 2026?

Luis Felli: A expectativa é de queda entre 6% e 7% em unidades. Mas é importante entender que o segmento de maior valor - máquinas de alta potência para grãos - deve cair mais do que a média. Nos últimos anos, houve um crescimento de máquinas menores, impulsionado por culturas como café, que têm ticket mais baixo. Isso distorce um pouco a leitura em unidades. No nosso caso, estamos trabalhando para crescer cerca de 3%, ganhando participação com lançamentos e expansão de portfólio. É um cenário desafiador, mas com oportunidades.

O que a Massey Ferguson está trazendo de novidade na Agrishow?

Luis Felli: Estamos com 11 lançamentos. Ampliamos bastante o portfólio, tanto para baixo quanto para cima. Estamos entrando em faixas de baixa potência que não atendíamos antes, com tratores a partir de 35 cavalos, e também avançando em alta potência, chegando a 425 cavalos, voltados principalmente para grãos e cana-de-açúcar. Além disso, temos nova plantadora e nova colhedora de grãos. A ideia é atender um espectro maior de produtores, com soluções mais completas.

A alta dos fertilizantes pode afetar a venda de máquinas?

Luis Felli: Eu não vejo uma relação direta com a compra de máquinas. O fertilizante afeta muito mais a rentabilidade da lavoura do que a decisão de investimento em si. O que acontece é que, com fertilizantes mais caros - especialmente os nitrogenados, que subiram bastante por conta da relação com petróleo, o produtor fica mais cauteloso e busca eficiência. E aí entra a tecnologia. Hoje já temos sistemas de taxa variável, que permitem aplicar fertilizante exatamente onde e na quantidade necessária. Isso reduz desperdício e melhora a eficiência. Além disso, o produtor ajusta manejo, usa estoque do solo, busca alternativas, como no caso da cana, com vinhaça e outros insumos. Ou seja, há uma adaptação.

Para fechar: qual é a principal mensagem que o senhor leva dessa Agrishow?

Luis Felli: É um momento de cautela, mas não de pessimismo estrutural. O agro brasileiro continua muito forte. O produtor está mais seletivo, esperando mais clareza antes de investir. Mas existem sinais positivos, especialmente olhando para o segundo semestre. Se algumas variáveis melhorarem, a confiança tende a voltar gradualmente.

Fonte: Broadcast Agro.