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03/Jun/2026

Fertilizantes: riscos para o abastecimento global

Segundo o ING, a intensificação da crise no Oriente Médio e a possibilidade de restrições prolongadas ao fluxo comercial no Estreito de Ormuz ampliam os riscos para o abastecimento global de fertilizantes, com potencial impacto mais relevante sobre a América do Sul, região estratégica na produção mundial de alimentos. Observa-se aumento da vulnerabilidade em países altamente dependentes de importações, como o Brasil, responsável por cerca de 85% das suas necessidades de fertilizantes via compras externas. O cenário indica que, embora não haja sinais imediatos de desabastecimento, os efeitos da instabilidade podem se tornar mais evidentes entre o fim de 2026 e o início de 2027.

A possível continuidade das restrições logísticas tende a pressionar custos de insumos e reduzir margens de produtores agrícolas brasileiros, com reflexos diretos sobre o planejamento de plantio e a composição das áreas cultivadas. Em um ambiente de maior custo de fertilizantes, a tendência é de ajuste no mix de produção, com possível aumento relativo da área de soja em detrimento do milho, em função da menor exigência de adubação da oleaginosa. Esse movimento pode restringir a oferta global de milho, insumo central na cadeia de alimentação animal, com efeitos potenciais sobre os mercados de carnes e proteínas. O mercado também monitora a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño em 2026, que adiciona risco climático ao cenário de insumos.

No episódio de 2023/24, a produtividade agrícola brasileira foi negativamente impactada, reforçando a percepção de vulnerabilidade da produção diante de eventos climáticos adversos combinados a restrições de oferta de fertilizantes. Em escala global, a Food and Agriculture Organization (FAO) avalia a possibilidade de um choque sistêmico no sistema agroalimentar, com potencial de desencadear forte pressão sobre os preços dos alimentos. O risco é considerado mais elevado em regiões da África e da Ásia, mais dependentes de cadeias externas de fornecimento de insumos e alimentos, enquanto a Europa apresenta menor exposição relativa, embora ainda sujeita a impactos nos custos ao longo dos próximos 12 meses. A deterioração da relação entre preços de fertilizantes e commodities agrícolas em comparação a 2022 também favorece decisões de redução de doses aplicadas nas lavouras, o que pode afetar a produtividade global.

Nesse contexto, a International Fertilizer Association projeta possível retração do consumo mundial de fertilizantes na safra 2026/27, caso persistam as limitações de oferta por período prolongado. O quadro é agravado por restrições e cotas de exportação adotadas por grandes fornecedores globais, como Rússia e China, ampliando a vulnerabilidade de regiões importadoras como América do Sul, Índia, Austrália e União Europeia. Em resposta, países têm intensificado medidas para garantir o abastecimento interno, com destaque para iniciativas da Austrália voltadas à segurança de carregamentos de ureia e fertilizantes nitrogenados, além de um plano da União Europeia direcionado ao apoio de agricultores mais afetados pelo aumento dos custos de produção. A combinação entre riscos geopolíticos, restrições comerciais, eventos climáticos e deterioração da relação de troca entre insumos e commodities sustenta a perspectiva de maior volatilidade no mercado global de fertilizantes e alimentos nos próximos ciclos produtivos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.