09/Jun/2026
Os conflitos geopolíticos seguem gerando incertezas no mercado internacional de energia e de produção de alimentos. Atualmente, duas grandes regiões produtoras de gás natural e insumos para fertilizantes, Leste Europeu (Ucrânia/Rússia) e Oriente Médio, seguem em um ambiente de forte tensão. O conflito armado no extremo leste da Ucrânia arrasta-se desde 2022 e, após quatro anos, somou-se a ele uma nova escalada de tensão na região do Golfo Pérsico. Esse cenário é agravado com ataques de drones ucranianos que atingem a capacidade de refino na Rússia, além do risco de interrupção nas rotas de escoamento de energia no Estreito de Ormuz. Somando-se a esse quadro, a China reforçou restrições severas às exportações de fertilizantes para blindar o mercado interno. A combinação desses fatores é a restrição de oferta mundial e o encarecimento do gás natural e enxofre.
Ressalta-se que o contexto global não atingiu nível mais crítico devido a um fator sazonal: o Hemisfério Norte está na estação da primavera e caminha para o verão, quando a demanda pelo gás natural para aquecimento se reduz drasticamente, aliviando temporariamente a pressão sobre os preços. Ainda assim, o cenário é de aumento nas cotações dos fertilizantes nitrogenados e do enxofre, sendo este último essencial para a fabricação de fosfatados, como o super simples (SSP) e o super triplo (TSP), que, por sua vez, também registraram sucessivas valorizações no mercado internacional. Além disso, o enxofre dá origem ao ácido sulfúrico, insumo amplamente utilizado na produção de MAP e DAP. O fato é que o ácido sulfúrico passou a ser fortemente demandado também por indústrias produtoras de baterias para veículos elétricos (VEs), intensificando, assim, a disputa por essa matéria-prima intersetorial.
Em meio a esse contexto, os preços médios dos fertilizantes simples registraram alta no mercado internacional de março para abril. No Norte da África, o valor médio da ureia subiu 24,2% e, no Porto do Mar Báltico, 28,5%. O fertilizante fosfato monoamônico (MAP) aumentou nos portos do Mar Báltico e Casa Blanca (Marrocos), em, respectivamente, 9,1% e 11,4%. O preço do supertriplo subiu 11,9% no porto de Casa Blanca. A matéria-prima enxofre se valorizou 42,8% em abril frente ao mês anterior, fechando à média de US$ 801,00 por tonelada no Porto de Vancouver, Canadá, este é o maior patamar desde 2000, segundo acompanhamento do Cepea. O preço do cloreto de potássio negociado em Vancouver avançou 3,3% de março para abril. Os avanços nos preços externos de importantes insumos agrícolas tendem a ser repassados ao produtor agrícola brasileiro.
E, para avaliar estes possíveis impactos, o Cepea realizou uma simulação do planejamento agrícola para 2026/27. Para isso, foram considerados os mesmos coeficientes técnicos das operações mecânicas e dos insumos da safra 2024/25, mas os preços destes insumos foram atualizados (de janeiro a abril de 2026). O valor médio projetado da soja para safra 2025/26 assume o patamar de US$ 12,00 por bushel (contrato futuro com embarque em junho de 2026), o prêmio exportação do grão de 27,45 centavos de dólar por bushel e taxa de câmbio de R$ 5,05. Quanto ao preço médio de venda da soja para a safra 2026/27, tem-se duas simulações para diferentes taxas de câmbios, em que o cenário 1 assume valor de 5,00 (valor médio de abril) e o cenário 2, uma taxa projetada em R$ 5,26 paro o ano de 2027, segundo o Boletim Focus, do Banco Central.
Ambos os cenários consideraram o contrato Março/27 da Bolsa de Chicago, de US$ 12,00 por bushel, prêmio médio exportação do grão, negativo de 10,97 centavos de dólar por bushel para abril. Além disso, foi considerada a produtividade média das últimas cinco safras (2020/21 a 2024/25) para as seguintes regiões: Sorriso (MT), Campo Novo do Parecis (MT), Maracaju (MS), Rio Verde (GO), Cascavel (PR), Londrina (PR), Guarapuava (PR), Carazinho (RS), Triângulo Mineiro, Luís Eduardo Magalhães (BA) e Balsas (MA) para as duas safras (25/26 e 26/27). Diante disso, cálculos do Cepea mostram que o custo com fertilizante registrou alta de 3,9%, o com a operação mecânica, 3,4%, e os gastos com sementes tratadas, 2,7% no período (2026/27 x 2025/26). Em contrapartida, a redução dos valores orçados para defensivos agrícolas (-9,3%), amenizou os efeitos da alta, esse insumo se desvalorizou sobretudo devido ao enfraquecimento do dólar.
Com isso, o orçamento para o custo de produção registrou leve recuo de 3,2% para safra 2026/27 frente à temporada anterior. A margem bruta estimada para o cenário 1 para produtor com a terra própria deve reduzir 26,6% entre 2025/26 e 2026/27, isto é, em valores absolutos, R$ 1.168,0 por hectare. No entanto, para quem arrenda área agrícola, o cenário piora, pois, a margem bruta fica negativa, em R$ 213,30 por hectare. Para o cenário 2, a margem do produtor de terra própria pode reduzir 4% entre 2025/206 e 2026/2027, com margem positiva de R$ 1.527,60 por hectare. Já os produtores em área arrendada têm margem bruta projetada em R$ 146,30 por hectare. No cenário 1, para saldar os custos operacional efetivo e total, o produtor de Sorriso precisaria respectivamente de 60,7 sacas de soja/ha e de 80,8 sacas/ha, ante uma produtividade média das últimas cinco safras (2020/21 a 2024/25) de 65 sacas/ha.
Em Rio Verde (GO), a produtividade de nivelamento ficou em 57,4 sc/ha para cobrir o COE e em 78,9 sc/ha para o CT, contra uma produtividade média de 67,2 sc/ha na média das últimas cinco temporadas; em Maracaju (MS), seriam necessárias 46,1 sc/ha para o COE e 66,1 sc/ha para o CT, sendo que a produtividade média foi de 64,6 sc/ha. Para regiões de Cascavel e Carazinho, seriam necessárias 47,2 e 42,4 sc/ha, respectivamente, para saldar o COE e 80,0 e 74,4 sc/ha para cobrir o CT, contra produtividades médias de 56,3 sc/ha em Cascavel e de 48,7 sc/ha em Carazinho. Diante disso, com taxa de câmbio de R$ 5,26, para saldar os custos operacional efetivo e total, o produtor de Sorriso precisaria respectivamente de 56,9 sacas de soja/ha e de 75,7 sacas/ha, ante uma produtividade média das últimas cinco safras (2020/21 a 2024/25) de 65,0 sacas/ha. Em Rio Verde, a produtividade de nivelamento ficou em 54,1 sc/ha para cobrir o COE e em 74,4 sc/ha para o CT, contra uma produtividade média de 67,2 sc/ha na média das últimas cinco temporadas; em Maracaju, seriam necessárias 43,5 sc/ha para o COE e 62,4 sc/ha para o CT, sendo que a produtividade média foi de 64,6 sc/ha.
Para regiões de Cascavel e Carazinho, seriam necessárias 44,6 e 40,1 sc/ha, respectivamente, para saldar o COE e 75,7 e 70,4 sc/ha para cobrir o CT, contra produtividades médias de 56,3 sc/ha em Cascavel e de 48,7 sc/ha em Carazinho. Dentre os dois cenários simulados, o primeiro preocupa significativamente os produtores, pois uma quebra de safra, sem ajustes no valor do contrato futuro, no prêmio de exportação do grão e na taxa de câmbio, pode levar o produtor a registrar a menor margem desde 2008/2009. Outro ponto que acende um alerta estrutural: a própria tendência global de descarbonização e transição energética passa a competir por recursos com a cadeia agroalimentar. Ao inflacionar insumos químicos essenciais e pressionar a matriz de custos dos fertilizantes, a corrida pela sustentabilidade ambiental coloca em xeque a capacidade de se produzir alimentos baratos em escala global, inaugurando um período de pressões inflacionárias estruturais no campo. Fonte: Mauro Osaki; Ana Maria Piccino; Renato Garcia Ribeiro. Cepea.