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29/Jul/2026

Logística e o envelhecimento dos caminhoneiros

O transporte rodoviário de cargas no Brasil enfrenta um processo de envelhecimento da força de trabalho, acompanhado pela redução da entrada de novos profissionais na atividade. Esse movimento tende a ampliar a escassez de mão de obra, elevar os custos operacionais e gerar impactos sobre a eficiência logística e o abastecimento de diferentes cadeias produtivas. Levantamento da consultoria Ilos, elaborado com base em dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), mostra que o número de motoristas habilitados nas categorias C, D e E da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) caiu de 5,6 milhões em 2015 para 4,4 milhões em 2026, redução de 21%. Além da diminuição do contingente de profissionais, a composição etária da categoria mudou significativamente. Em 2026, 60% dos motoristas profissionais têm mais de 51 anos, ante 48% registrados em 2015. A participação dos condutores entre 18 e 30 anos recuou de 6% para 4% no período, enquanto a faixa de 31 a 40 anos diminuiu de 16% para 13%, evidenciando baixa renovação da mão de obra.

Como consequência, a idade média dos motoristas profissionais aumentou de 47,6 anos em 2011 para 54,7 anos em 2026. Os dados indicam que o ingresso de novos profissionais não acompanha o ritmo de aposentadorias e da saída de trabalhadores da atividade. A redução da disponibilidade de motoristas tende a restringir a oferta de transporte rodoviário de cargas, afetando tanto a disponibilidade de veículos em operação quanto a capacidade das empresas de atender à demanda. Esse cenário poderá pressionar os preços dos fretes e reduzir a eficiência das cadeias logísticas, com reflexos sobre diferentes segmentos da economia. A escassez de mão de obra já figura entre os principais desafios enfrentados pelo setor. Levantamento da NTC&Logística aponta que a falta de profissionais qualificados foi mencionada por 28,1% das empresas, atrás apenas da retração do mercado interno, citada por 40,7% dos entrevistados. Entre as transportadoras, a contratação de motoristas e transportadores agregados representa o principal desafio para 88% das empresas consultadas.

O Instituto Setcepar de Educação no Transporte (Iset) observa que a dificuldade de contratação já é percebida pelas áreas de recursos humanos das empresas. Embora os caminhões atuais ofereçam maior nível de tecnologia embarcada, conforto e segurança, a profissão ainda é associada pelos jovens a jornadas prolongadas, baixa qualidade de vida e longos períodos afastados da família. Entre os fatores que dificultam a renovação da categoria estão o elevado custo para obtenção da CNH nas categorias profissionais, o tempo prolongado longe do ambiente familiar e a percepção de uma rotina de trabalho desgastante. Além disso, a falta de conhecimento sobre as transformações tecnológicas do setor contribui para reduzir o interesse pela atividade. O perfil profissional exigido pelas transportadoras também se tornou mais complexo. Além da condução segura e do conhecimento da legislação de trânsito, incluindo normas aplicáveis aos países do Mercosul, os motoristas precisam operar sistemas de telemetria, utilizar tecnologias embarcadas e atuar diretamente no relacionamento com clientes durante as operações logísticas.

Como estratégia para retenção de profissionais, empresas do setor ampliam investimentos em programas de qualidade de vida, planejamento de escalas para conciliar atividades profissionais e convivência familiar, melhorias ergonômicas, ações de saúde ocupacional e iniciativas voltadas ao bem-estar dos motoristas. Também são realizados investimentos em avaliações médicas específicas para a atividade e em programas de conscientização sobre pausas obrigatórias, alimentação e alongamento durante as viagens. No campo das políticas públicas, representantes do setor defendem medidas para reduzir os custos de acesso à CNH profissional, simplificar procedimentos administrativos e ampliar o apoio financeiro para formação de novos condutores, mantendo a qualidade da capacitação e a segurança viária. A digitalização das operações também é apontada como instrumento para elevar a eficiência logística.

Apesar da ampla utilização de smartphones pelos motoristas, a adoção de plataformas digitais para contratação de fretes, gestão operacional e recebimento de pagamentos ainda avança de forma gradual, principalmente entre profissionais com idade superior a 50 anos. A expansão da conectividade, impulsionada pela tecnologia 5G, tende a ampliar esse processo, embora não seja suficiente para solucionar a escassez estrutural de mão de obra. Na avaliação do setor, a recuperação da atratividade da profissão dependerá de melhorias na remuneração, na infraestrutura de apoio aos motoristas, na segurança das rodovias e nas condições de trabalho. Iniciativas como áreas de descanso, instalações de apoio nas unidades industriais e investimentos em tecnologia para facilitar o acesso a cargas e pagamentos são apontadas como fatores capazes de contribuir para a renovação da categoria e reduzir os riscos de impactos sobre a logística nacional. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.