30/Jul/2026
O Brasil, que importa cerca de 86% das necessidades de fertilizantes, busca reduzir essa dependência. Há várias frentes nessa empreitada: a volta da Petrobras ao setor, um programa governamental de incentivos e investimentos privados para aumentar a capacidade produtiva. Em 2025, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foram importados 45,5 milhões de toneladas, ante 44,28 milhões no ano anterior. O Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), do governo federal, prevê que, em 2050, a produção nacional abasteça cerca de 50% do consumo interno. Para isso, conta com o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), que destina até R$ 10 bilhões em subsídios ao setor entre 2027 e 2031. Em meados de junho, o texto do projeto, que foi modificado pela Câmara dos Deputados, aguardava votação no Senado, com expectativa de ser aprovado até fim de julho. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), há 18 empreendimentos para produção de fertilizantes em curso, sendo sete de nitrogênio, sete de fosfatados e quatro de potássio.
Alguns já estão iniciando produção e outros têm perspectiva de entrar em operação até 2032. Com a retomada da capacidade ociosa de unidades da Petrobras, que já reativou algumas, e a conclusão dos projetos em andamento, a dependência externa de nitrogenados pode cair de 97% para 59% e a de fosfatados, de 70% para 38% até 2032. A estatal vem, desde 2025, retomando projetos paralisados há anos. São quatro as fábricas que, juntas, poderão atender 35% do mercado interno de ureia a partir de 2029. A ureia é o fertilizante nitrogenado mais usado no mundo e entra na mistura de fertilizantes NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). A primeira fábrica é a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen), de Laranjeiras, em Sergipe, cuja operação começou no fim de dezembro de 2025, produzindo amônia (insumo para a ureia). No mês seguinte, iniciou a fabricação de fertilizantes, com capacidade para 1,8 mil toneladas diárias de ureia, volume que representa 7% do mercado interno.
Também em janeiro de 2026, a Fafen de Camaçari, na Bahia, começou a produzir amônia e cerca de 1,3 mil toneladas por dia de ureia, além de Arla 32 (um reagente usado em motores a diesel). Juntas, as Fafens do Nordeste exigiram aportes de R$ 38 milhões em investimentos iniciais cada uma. No Paraná, a Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), unidade da Petrobras que estava hibernando desde 2020, retomou suas atividades no fim de abril, depois de investimentos de R$ 870 milhões. A capacidade produtiva, de 720 mil toneladas por ano de ureia (cerca de 8% do mercado nacional), está aumentando de forma gradativa. As capacidades da Ansa e das Fafens de Sergipe e Bahia, somadas, garantem 20% da demanda nacional interna de ureia. Uma terceira unidade, UFN-III, em Três Lagoas (MS), recebeu o sinal verde do conselho de administração da Petrobras em abril passado. Terá cerca de US$ 1 bilhão em investimentos, com inauguração prevista para 2029, permitindo assim à estatal atender 35% do mercado doméstico de ureia.
As multinacionais seguem investindo no País. A Mosaic, uma das principais produtoras globais de fertilizantes fosfatados e potássio combinados, inaugurou em junho do ano passado sua nova unidade misturadora em Tocantins. A empreitada exigiu R$ 400 milhões em investimentos para uma capacidade inicial de 500 mil toneladas anuais, que deve dobrar até 2028. No total, a empresa tem capacidade para produzir 4 milhões de toneladas anuais no Brasil. Se, por um lado, a Mosaic consolida investimentos, por outro, revisa sua estratégia de negócios no País. De forma geral, a companhia tem priorizado projetos com maior retorno, menor exposição à volatilidade de custos de matérias-primas. Além de vender, em novembro de 2025, o Complexo de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete (SE), única mina de extração de cloreto de potássio em operação no país, a Mosaic anunciou em abril de 2026 a paralisação e a intenção de vender seus ativos em Araxá (MG).
A parada da produção retira 1 milhão de toneladas anuais de fertilizantes fosfatados do mercado nacional. Uma das razões para a decisão foi a alta sem precedentes do preço do enxofre (matéria-prima para fertilizantes fosfatados): subiu de US$ 100,00 a US$ 150,00 por tonelada para cerca de US$ 500,00 por tonelada no início deste ano e, entre abril e maio, em função do agravamento de tensões geopolíticas e de restrições na oferta global, chegou a superar US$ 1 mil por tonelada em determinados mercados. Para a Yeb Inteligência de Mercado, o encerramento da atividade do Complexo de Araxá traz um impacto relevante na oferta de fertilizantes. Em um cenário em que os preços internacionais já estão elevados, essa redução sustenta ainda mais a tendência de alta. Para a indústria nacional aumentar a produção e ajudar o País a diminuir a dependência externa, são necessários preços competitivos de matérias-primas e insumos. Para a produção de ureia, o gás natural responde pela maior parte do custo.
Seu preço no Brasil anula qualquer vantagem que se ganhe do lado tributário ou fiscal. A norueguesa Yara, que tem capacidade para produzir 2 milhões de toneladas anuais de fertilizantes em suas três unidades no Brasil, Rio Grande (RS), Ponta Grossa (PR) e Cubatão (SP), está ampliando sua atuação em bioinsumos. Dos US$ 42 milhões investidos mundialmente nos últimos dois anos no segmento, cerca de 50% vieram para o mercado brasileiro. A empresa pretende quadruplicar neste ano seu portfólio de fertilizantes de baixo carbono, projeto que começou com o café e agora deve ser estendido para outras culturas, como citros, milho, cevada e cana-de-açúcar. A menor pegada de carbono é resultado de uma tecnologia de redução do óxido nitroso, um subproduto do processo fabril altamente poluente, e uso de biometano já em curso na unidade de Cubatão. A ideia é ampliar essa utilização.
Em outra frente, a empresa anunciou, em maio, uma parceria com a Netafim, controlada pela mexicana Orbia, voltada para fertirrigação, prática que combina a aplicação de nutrientes por meio do sistema de irrigação, e potencializa a agricultura de precisão. No acordo, estão previstas a construção de um Centro de Capacitação em Fertirrigação na unidade de Sumaré da Yara e a criação de polos de fertirrigação no Triângulo Mineiro, São Paulo, Espírito Santo e Bahia. Tornar o Brasil autossuficiente em fertilizantes é um desafio complexo. Um dos obstáculos é o custo do gás natural, principal insumo para os nitrogenados, que está em torno de US$ 15,00 a US$ 18,00 por milhão de BTU (unidade de medida de energia térmica). No Golfo do México, esse valor é de aproximadamente US$ 1,00 por milhão de BTU. Sem uma energia competitiva, há grande dificuldade de competir globalmente. No segmento de potássicos, a Stratos, empresa que comprou a mina de Taquari-Vassouras da Mosaic, num negócio que envolveu cerca de US$ 27 milhões, tem planos para aumentar a produção de cloreto de potássio.
Atualmente, de cerca de 500 mil toneladas, deve crescer 11% já em 2026, com perspectiva de elevação para os próximos anos, à medida que novos investimentos e melhorias operacionas forem realizados. No Amazonas, o projeto Autazes (no município de mesmo nome) da Potássio do Brasil, subsidiária da mineradora canadense Brasil Potash, vai exigir US$ 2,5 bilhões no total dos investimentos para chegar à capacidade plena de cloreto de potássio, insumo essencial para fertilizantes potássicos. A produção nominal prevista é de cerca de 2,4 milhões de toneladas por ano e a vida útil estimada está em 23 anos. Segundo a empresa, a entrada em operação comercial dependerá da conclusão do financiamento, da implantação da infraestrutura e das demais etapas técnicas e regulatórias aplicáveis. Em maio, a Brasil Potash captou US$ 63 milhões para investir nas fases iniciais do empreendimento, que já tem serviço de engenharia de projeto básico contratado. A empreitada é objeto de controvérsia ambiental.
O Ministério Público Federal do Amazonas (MPF-AM) contesta a licença ambiental emitida pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão estadual. Alega que a competência para licenciar é federal, por envolver terras indígenas e, portanto, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Por isso, o MPF-AM pediu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) que anulasse a licença. No entanto, em meados de junho, o TRF-1 referendou a competência do Ipaam para seguir com o processo de licenciamento, já que o projeto está fora de área indígena demarcada, na visão dos desembargadores. Dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) indicam que, de janeiro a março de 2026, a produção nacional de fertilizantes chegou 1,4 milhão de toneladas, queda de 16,2% em relação ao mesmo período de 2025. A entidade salienta que, devido a mudanças na estrutura societária ou na retomada de produção em ativos, nem toda produção nacional foi capturada no período.
As entregas ao mercado de fertilizantes no primeiro trimestre do ano (que consideram a produção nacional, mais a importação, menos a exportação) somaram 9,76 milhões de toneladas, 3,8% acima do mesmo período de 2025. No ano passado todo, essas entregas foram de 49,1 milhões de toneladas, com 7,2 milhões de produção nacional. Pesquisa da Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal (Abisolo), que reúne produtores de fertilizantes especiais, como os biológicos e organominerais, sobre expectativas para 2026 indica que 92% das empresas pretendem investir em pesquisa e inovação, 77% em modernização das instalações, 74% em diversificação de portfólio, 57% em ampliação do quadro de colaboradores, 23% em nova fábrica e 20% em aquisições. Os fertilizantes especiais integram uma estratégia mais ampla de eficiência, inovação, tropicalização tecnológica e redução de vulnerabilidades da cadeia de insumos. O Brasil tem condições de desenvolver soluções adaptadas às suas culturas, solos e condições climáticas. Isso aumenta a autonomia tecnológica. Fonte: Valor Online. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.