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04/Aug/2026

Energia Solar: entrevista com Rodrigo Sauaia-Absolar

A energia solar no Brasil está enfrentando sua primeira grande crise, criada pela alta taxa de juros e pelos cortes de energia (curtailment). Com isso, as instalações dos sistemas fotovoltaicos devem registrar queda entre 20% e 25% este ano, levando o País a perder mais posições no ranking global, disse o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), Rodrigo Sauaia. À frente da entidade desde 2013, o executivo avalia que a queda é normal, após tantos anos de crescimento, e que mesmo assim serão adicionados 10,8 gigawatts em projetos do setor este ano. Ele vê como positiva a introdução de baterias no sistema brasileiro, que podem dar novo impulso à energia solar, mas afirmou que sem resolver a questão do curtailment, quem vai pagar o preço é o consumidor. Segue a entrevista:

Como está o setor de energia solar neste momento, com conflitos geopolíticos, problemas de carteira e mudança de regras?

Rodrigo Sauaia: Nós ainda estamos enfrentando a maior crise que o setor de renováveis já viveu, e isso pega a solar, mas também pega a eólica. É um momento difícil, é um ano desafiador, e a nossa previsão é de queda na instalação de sistemas solares. Isso vale tanto para usinas de grande porte quanto para a geração própria, nos telhados, na chamada geração distribuída. Mesmo sendo um setor com fundamentos fortes, a conjuntura está pesando e exige reorganização de empresas e projetos.

Qual é a dimensão dessa queda prevista?

Rodrigo Sauaia: A nossa projeção é de uma redução de 20% a 25% em relação ao ano passado. Ainda assim, a expectativa é fechar o ano com cerca de 10,8 gigawatts adicionados, o que segue sendo um volume importante. Esse número mantém o Brasil entre os grandes mercados globais de energia solar, mas indica uma desaceleração relevante. É uma queda que marca um período de adequação do setor depois de muitos anos de crescimento expressivo.

O Brasil pode perder mais posições no ranking mundial da energia solar?

Rodrigo Sauaia: Em 2024, o Brasil foi o quarto maior mercado do mundo em potência adicionada. No ano passado, já caímos para a quinta posição e, se a projeção se confirmar, é possível perder pelo menos mais uma posição. Isso depende também de como os outros mercados vão avançar, então ainda é cedo para cravar. Mas o movimento é de redução importante e sinaliza que o setor está vivendo uma fase de amadurecimento.

Essa crise é uma "dor do crescimento" ou tem fatores de fora do setor pesando mais?

Rodrigo Sauaia: Tem um aspecto de amadurecimento, porque depois de anos seguidos de expansão muito forte, é natural que o mercado passe por um período de ajuste. Mas há fatores que são consequência de questões maiores do que o próprio setor. Como a energia solar se tornou mais relevante, aspectos macroeconômicos influenciam cada vez mais. A gente sente o impacto da taxa elevada de juros e de um ambiente mais difícil de crédito e investimento no Brasil.

Quais são os principais entraves macroeconômicos hoje?

Rodrigo Sauaia: A taxa elevada de juros encarece o acesso ao financiamento e reduz a taxa de instalação de sistemas solares. As famílias estão mais endividadas, muitas não conseguem pegar empréstimo para instalar novas tecnologias, mesmo que o sistema solar gere economia no longo prazo. Com a Selic em 14,25%, qualquer negócio enfrenta um desafio enorme para investir em novos projetos, porque o retorno precisa ser muito alto para pagar o custo de capital. Isso vale para o setor solar e para a economia como um todo.

Enquanto o Brasil desacelera, como está a energia solar no mundo?

Rodrigo Sauaia: A energia solar segue crescendo forte no mundo. Em 2025, segundo o estudo "Global Solar Market Outlook", compilado pela Solar Power Europe, o mundo adicionou 861 gigawatts de renováveis, e a energia solar respondeu por 664 gigawatts. Isso representa crescimento de 12% frente a 2024, com a solar mantendo protagonismo. É um crescimento menor do que em anos anteriores, mas ainda em escala muito elevada e com papel dominante na transição energética.

E no Brasil, o que está travando as grandes usinas solares?

Rodrigo Sauaia: O principal fator é o problema dos cortes de geração que atingem usinas solares e eólicas. Diante da incerteza sobre como esses cortes serão tratados, qual será o ressarcimento e quando esse dinheiro vai chegar, investidores seguraram novos investimentos. Muitos projetos ficaram em compasso de espera, foram congelados ou cancelados. Esse desequilíbrio econômico-financeiro é insustentável e impede que as empresas aprovem novos projetos sem clareza de retorno.

Esse cenário deve acelerar fusões e aquisições?

Rodrigo Sauaia: Está acontecendo e aumentou. Há troca de controle de empresas e de ativos, e algumas companhias estão vendendo ativos solares para pagar dívidas e reestruturar as operações. Esse movimento também inclui empresas que não vão conseguir atravessar esse período de turbulência. É um processo típico de reorganização quando o mercado reduz o ritmo e o crédito fica mais caro.

Na geração distribuída, o cenário é diferente?

Rodrigo Sauaia: É diferente no sentido de que os fatores são mais espalhados. Pesam o custo de capital, a Selic alta e o encarecimento do financiamento, além do endividamento das famílias e das empresas, que reduz a capacidade de tomar crédito. Mas os fundamentos seguem robustos, porque o custo da energia elétrica tem subido acima da inflação. Isso mantém o interesse em gerar a própria energia, seja em residências, comércio, agronegócio ou indústria.

As baterias podem destravar uma nova fase para o setor elétrico e para o solar?

Rodrigo Sauaia: As baterias podem inaugurar um novo paradigma, mas é importante dividir em etapas. O Brasil vai fazer pela primeira vez leilões de baterias, previstos para os dias 2 e 4 de dezembro, e isso pode trazer flexibilidade operativa e segurança energética a preços menores do que fontes fósseis. Além disso, reduz emissões e tira do consumidor a exposição ao preço de combustíveis e à variação cambial. Mas, para o segmento de grandes usinas, antes disso é indispensável resolver a questão dos cortes de geração.

O que falta para resolver, de fato, os cortes de geração?

Rodrigo Sauaia: Houve um avanço com a publicação da portaria 140, de 2026, que trata do ressarcimento dos cortes entre 2023 e 2025, ou seja, olha para o passado. Isso é um passo importante porque os geradores estão acumulando um peso financeiro desproporcional. Mas ainda falta regulamentar o ressarcimento dos cortes futuros, para que as empresas tenham previsibilidade. Enquanto não resolver o passado e o futuro, é muito difícil aprovar novos investimentos em grandes usinas.

Quando se fala em baterias, o debate costuma se concentrar no leilão. O que ainda falta para o uso de baterias pelo consumidor comum avançar no Brasil?

Rodrigo Sauaia: O primeiro ponto é que a gente ainda não tem definido com clareza no Brasil uma regulamentação para que as pessoas, as empresas e os produtores rurais possam usar as baterias. Existe outro uso muito importante das baterias, além do leilão, que é justamente pelas pessoas e pelos pequenos negócios do Brasil. Por isso, nós aqui pela Absolar achamos fundamental o estabelecimento de uma regulamentação específica, com regras padronizadas em âmbito nacional. E essas regras precisam trazer facilidade e simplicidade para o consumidor que quiser instalar suas próprias baterias.

Além da falta de regras, o que pesa mais para a adoção das baterias no Brasil?

Rodrigo Sauaia: O segundo ponto é imposto. A carga tributária somada sobre baterias chega a 70% a 80%, o que é muito elevado. Isso prejudica diretamente a adoção dessa tecnologia no Brasil, porque encarece o produto e reduz o número de aplicações que ficam economicamente viáveis. Na prática, o imposto vira uma barreira tão grande quanto qualquer entrave técnico. E a consequência é o atraso na difusão de uma tecnologia que poderia ajudar o sistema elétrico e o consumidor.

Fonte: Broadcast Agro.