20/Jan/2020
O atraso na colheita da safra de verão (1ª safra 2019/2020) está pesando na decisão dos produtores de investir em fertilizantes para a 2ª safra milho este ano. Isso porque, com a demora na retirada dos grãos, a janela de plantio para o segundo ciclo dos cereais fica mais apertada e, consequentemente, as chances de obter bons níveis de produtividade são menores. A janela de plantio ficou muito curta, por isso ainda não se sabe qual será a extensão da área que será possível plantar. Dependerá do ritmo da colheita da soja e milho da safra de verão (1ª safra 2019/2020). Até a semana passada a colheita no Brasil atingia apenas 0,4% da área de soja. O número está aquém do resultado obtido no mesmo período do ano anterior, quando a colheita estava em 2,1% da área. Para o plantio da safra de verão de milho (1ª safra 2019/2020), o período considerado ideal vai da primeira semana de janeiro à última de fevereiro, variando conforme a região do País.
Os produtores que em outras temporadas iniciavam a semeadura da 2ª safra na primeira quinzena de janeiro, preveem começar os trabalhos de campo apenas no fim deste mês, como é o caso do Paraná. Em virtude da indefinição da área a ser semeada, grande parte dos produtores deixou de adquirir adubos especificamente para a 2ª safra de 2020. A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) calcula que de 30% a 40% dos produtores do Estado ainda não adquiriram fertilizantes para a 2ª safra de 2020. Os outros 60% a 70% o fizeram no segundo semestre do ano que passou, quando fecharam pacote único para as duas safras. Em outras temporadas, a negociação do insumo para o ano-safra todo já teria sido feita, já que a compra antecipada possibilita condições de financiamento mais favoráveis. A avaliação é de que a janela mais curta de plantio traz riscos para a cultura. Os produtores não farão investimento expressivo em tecnologia para a 2ª safra de 2020.
Em Mato Grosso, a situação é inversa. A maior parte da aquisição de insumos ocorreu no ano passado, em um pacote completo para as duas safras. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima que entre 90% a 95% dos fertilizantes já estão assegurados. Ainda é cedo para avaliar se o produtor vai aplicar mais ou menos adubo na 2ª safra de 2020 porque a colheita da soja começou recentemente. A decisão vai depender do ritmo da retirada do grão. A soja vai puxar a decisão de investimento em tecnologia. O produtor já começou a pensar nos insumos da safra 2020/2021. Em relação a fertilizantes, o produtor está preocupado com as compras para a próxima temporada de soja. O cenário apresentado no Paraná e em Mato Grosso reflete o comportamento do produtor rural das demais regiões do Brasil quanto ao investimento em fertilizantes. Na 2ª safra de 2020, o consumo dos adubos estará diretamente associado às condições climáticas enfrentadas em cada região.
Onde o clima foi regular, a aquisição de adubos ocorreu em ritmo normal, já que se espera alto retorno na rentabilidade no cereal. Mas, nas regiões em que o clima foi mais incerto, o produtor reteve o aporte em adubos ciente da condição adversa. As regiões beneficiadas pelo clima, e onde a colheita da soja está mais adiantada, pode haver incremento na área de milho 2ª safra 2020. O cereal passou por forte valorização nos últimos meses, e isso pode influenciar na intenção de plantio do produtor. A área total do País destinada à segunda safra crescerá de 3,5% a 3,8% em relação à temporada passada. Esse possível incremento de área pode gerar demanda pontual e momentânea por adubos para entrega imediata. A Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) informou que consultorias privadas estimam que a entrega de fertilizantes no acumulado de 2019 tenha sido entre 2% a 5% maior ante 2018. Se confirmado, o total estaria entre 36,2 milhões e 37,3 milhões de toneladas.
A Anda informa que a pesquisa setorial da entidade relativa ao acumulado entre janeiro e dezembro de 2019 será publicada somente em maio. Os dados mais recentes mostram alta de 1,9% nas entregas registradas entre janeiro e agosto do ano passado, de 22 milhões de toneladas, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O cenário que parece se firmar no momento é o de aumento na antecipação das entregas em virtude do ambiente favorável de relação de troca ao produtor rural. O consumo interno de adubos no Brasil alcançará de 37 milhões a 37,5 milhões de toneladas em 2020, alta de 1,4% a 2,7% em relação à estimativa da 36,5 milhões de toneladas de 2019. A decisão do agricultor de investir mais ou menos em fertilizantes na 2ª safra de milho de 2020 deve levar em conta também o preço do insumo, que subiu. No Paraná, os produtores estimam alta de 25% no custo do adubo por hectare, na comparação com a 2ª safra de 2019.
O custo atual é considerado muito alto e, associado a essa realidade de atraso na colheita de soja, desanima os produtores. O custo operacional da 2ª safra de milho de 2020 (que leva em conta o desembolso do produtor com insumos, mão-de-obra, transporte, financiamento e despesas administrativas) também é 25% superior. Segundo cálculo da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), os fertilizantes representam 23% do custo operacional da cultura no Estado. Em Mato Grosso, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) calcula que o custo dos fertilizantes subiu 18% por hectare, para R$ 626,46 por hectare, levando em conta o NPK (nitrogênio, fósforo e potássio). O dólar mais forte em relação ao Real ao longo do ano de 2019 puxou a alta dos insumos, já que os principais macronutrientes utilizados nas lavouras são importados. É o maior custo registrado desde a 2ª safra de 2015 e também a maior participação no custo operacional do cultivo, respondendo a 24%.
O custo operacional leva em conta o desembolso do produtor com insumos, mão-de-obra, transporte, financiamento e despesas administrativas. No Estado, o custo operacional da 2ª safra de 2020 avançou 12%, de R$ 2.413,78 por hectare na 2ª safra de 2019 para R$ 2.700,77 por hectare na temporada 2019/2020. A relação de troca (quantidade de grãos necessária para compra do insumo) está mais favorável ao produtor do Paraná que para o produtor de Mato Grosso. No fim de 2018 eram necessárias 63 sacas de 60 Kg de milho para comprar 1 tonelada de fertilizante, enquanto no fim de 2019, 50 sacas de 60 Kg eram necessárias para igual quantidade de adubo. O motivo dessa queda, em média de 22%, está atrelado especialmente à valorização do milho, mas também resulta de uma pequena redução no preço dos fertilizantes no período. Em Mato Grosso, a relação de troca subiu 13%.
No plantio da 2ª safra de 2019, eram necessárias 25,16 sacas de 60 Kg de milho para adubar um hectare com NPK, enquanto na 2ª safra de 2020 são necessárias 28,4 sacas de 60 Kg de milho para aplicação de NPK em 1 hectare. Em compensação, os preços dos fertilizantes no curto prazo devem recuar, o que beneficia os agricultores que ainda precisam adquirir insumos para a safrinha 2019/2020. Os principais adubos caíram de 0,4% a 0,8% na primeira quinzena de janeiro em relação aos quinze dias anteriores. Para o produtor que ainda não adquiriu adubo, o momento está favorável pelo estoque elevado na indústria e menor movimentação típica desse período. O viés de queda, porém, tende a ser curto. Em março, com a proximidade da 2ª safra e compras pontuais para as lavouras de cana-de-açúcar, a demanda do setor deve se aquecer e, com isso, os preços tendem a voltar a subir. O acréscimo das cotações tende a ganhar força em meados de abril e maio, período em que começam as compras de insumos para a safra 2020/2021.
O risco de volatilidade do dólar ante o Real, o acirramento da tensão no Oriente Médio e a perspectiva de safra robusta nos Estados Unidos no ciclo 2020/2021 devem ficar no radar dos produtores que planejam compras de insumos tanto no curto quanto no médio prazo. Todos esses fatores são altistas para os preços dos insumos e podem reverter o comportamento de queda observado. A instabilidade da moeda norte-americana ante o Real implica diretamente no preço pago pelo adubo pelo produtor, em virtude de o Brasil importar entre 70% e 80% do volume que consome. A tensão no Oriente Médio pode influenciar na cotação internacional dos insumos pelo fato do Irã estar localizado próximo ao estreito de Ormuz, via de escoamento de 10% da produção mundial de ureia, e produzir 2,5% do consumo mundial de ureia. Além disso, a Arábia Saudita é responsável por 5% da oferta mundial de fosfatados. Outro sinal altista vem dos Estados Unidos, que deve plantar uma safra maior em 2020/2021, o que pode representar incremento na demanda norte-americana por adubos. Fonte: Agência Estado. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.