18/Jun/2026
O Itaú BBA avalia que a formação de um evento de El Niño muito forte poderá elevar significativamente os riscos para a produção brasileira de soja na safra 2026/27 e para o milho de 2ª safra de 2027. Uma eventual quebra produtiva no Brasil teria potencial de gerar impactos mais expressivos sobre o mercado global do que em ciclos recentes, devido ao menor excedente projetado para o balanço mundial da oleaginosa. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou oficialmente a formação do El Niño em 11 de junho. Existe 63% de probabilidade de ocorrência de um evento classificado como muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Modelos climáticos europeus indicam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico poderá superar 3°C, intensidade superior à observada nos eventos de 1997/98 e 2015/16, que registraram picos de 2,3°C e 2,6°C, respectivamente. Os impactos sobre a agricultura brasileira tendem a ser heterogêneos.
Enquanto a Região Sul poderá ser beneficiada por volumes de chuva acima da média, favorecendo o desenvolvimento das lavouras de soja e milho, a Região Centro-Oeste e áreas produtoras das Regiões Norte e Nordeste deverão enfrentar maior risco de irregularidade das precipitações, veranicos e temperaturas elevadas. Entre os Estados potencialmente mais expostos estão Mato Grosso, Goiás, Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O principal ponto de atenção está concentrado no início do plantio da soja. Caso as chuvas atrasem no Centro-Oeste, a semeadura poderá ocorrer de forma irregular, aumentando a necessidade de replantio e reduzindo o potencial produtivo das lavouras. Além disso, atrasos no ciclo da soja tendem a comprometer o calendário do milho de 2ª safra de 2027, elevando sua exposição a períodos de menor disponibilidade hídrica e temperaturas mais elevadas durante fases críticas de desenvolvimento. O Itaú BBA utiliza a safra 2023/24 como referência para ilustrar os riscos associados ao fenômeno.
Naquele ciclo, Mato Grosso registrou chuvas abaixo da média durante parte importante do período de plantio, provocando interrupções na semeadura, alongamento da janela de implantação e necessidade de replantio em diversas áreas. Como resultado, a produtividade do Estado caiu 16% em comparação com a safra anterior. No Brasil, a produtividade média recuou 8%, enquanto o Rio Grande do Sul registrou aumento de 43%, compensando parcialmente as perdas observadas em outras regiões. A produção nacional de soja caiu de 162 milhões para 153 milhões de toneladas, redução próxima de 6%. Apesar dos riscos climáticos, o cenário-base do banco permanece positivo para a safra 2026/27. A projeção é de produção brasileira de 182,4 milhões de toneladas de soja, abaixo da estimativa de 186 milhões de toneladas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), mas ainda em nível recorde. A preocupação central está relacionada à redução da margem de segurança do mercado global. Segundo dados do USDA, o excedente entre produção e consumo mundial de soja deverá cair de quase 16 milhões de toneladas em 2024/25 para menos de 1 milhão de toneladas em 2026/27.
O aperto é atribuído principalmente ao crescimento da demanda por biocombustíveis, que amplia o consumo de óleo de soja e estimula o processamento do grão. Para avaliar os riscos, foi simulado um cenário de quebra de 6% na produção brasileira, percentual semelhante ao registrado em 2023/24. Nesse caso, a safra nacional recuaria para 169,2 milhões de toneladas, as exportações diminuiriam de 115 milhões para 105,5 milhões de toneladas e os estoques finais brasileiros cairiam para 3,8 milhões de toneladas. No mercado global, os impactos seriam ainda mais relevantes. Os estoques mundiais de soja ficariam abaixo de 110 milhões de toneladas, atingindo o menor nível desde 2023/24, enquanto a relação estoque/consumo recuaria de 28% para 25%. Esse cenário teria potencial de sustentação para os preços internacionais da oleaginosa. Diferentemente do ocorrido em 2023/24, o mercado global apresenta menor capacidade de compensação. Naquele período, a forte recuperação da produção argentina neutralizou os efeitos da quebra brasileira e contribuiu para a queda das cotações na Bolsa de Chicago.
Para 2026/27, é improvável a repetição de um aumento de aproximadamente 25 milhões de toneladas na produção argentina, tornando o mercado mais sensível a eventuais perdas no Brasil. No milho, o risco está diretamente ligado ao calendário da soja. Atrasos na semeadura e na colheita da oleaginosa podem deslocar o plantio do milho de 2ª safra de 2027 para fora da janela ideal, aumentando sua vulnerabilidade a períodos de estiagem e calor excessivo. O histórico de eventos de El Niño registrados em 2004/05, 2009/10 e 2015/16 demonstra que a produtividade do milho de 2ª safra tende a ser mais sensível às adversidades climáticas do que a soja cultivada na safra de verão. Embora os avanços tecnológicos em sementes, manejo e irrigação possam reduzir parte dos impactos observados em eventos anteriores, o desempenho da safra 2026/27 continuará fortemente condicionado ao comportamento das chuvas durante o início do plantio no Centro-Oeste. A definição da janela da soja será determinante para o nível de risco associado ao milho de 2ª safra de 2027 e para o equilíbrio do mercado global de grãos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.