28/Apr/2026
Segundo a CZ Insights, a projeção do Ministério da Agricultura da China de que as importações de soja cairão de 112 milhões de toneladas em 2025 para 82,6 milhões de toneladas em 2035 desconsidera o efeito que a oferta brasileira mais abundante e barata vem tendo sobre os preços e sobre a própria demanda chinesa. A insistência da China em projetar quedas ano após ano sugere que essas projeções são propaganda disfarçada de análise objetiva de mercado. O governo chinês já projetava redução das compras externas desde 2022, quando previu queda para 85,8 milhões de toneladas até 2031. O resultado foi o oposto: as importações atingiram recorde de 112 milhões de toneladas no ano civil de 2025. A repetição dessas projeções, apesar da trajetória efetiva do mercado, reflete uma leitura que dá peso excessivo às metas oficiais de redução da dependência externa e peso insuficiente ao comportamento real da oferta e da demanda.
O ponto central da análise é o papel do Brasil. Entre 2022 e 2025, as importações chinesas de soja brasileira saltaram de 54,4 milhões de toneladas para 82,3 milhões de toneladas. No mesmo intervalo, o custo médio da soja importada caiu de um pico de US$ 723,00 por tonelada em agosto de 2022 para US$ 443,00 por tonelada em agosto de 2025. Esse barateamento ajudou a sustentar o consumo chinês mesmo num ambiente de demanda doméstica mais fraca. O efeito apareceu primeiro no farelo. O preço do farelo de soja na China ficou em 2025 cerca de 40% abaixo do pico de 2022, incentivando fábricas de ração e pecuaristas a manter participação elevada do insumo nas formulações, apesar da orientação do próprio governo para reduzir o uso. Entre 2022 e 2025, a produção de ração para suínos cresceu 30 milhões de toneladas e a de ração para aves, 12 milhões de toneladas, segundo a Associação da Indústria de Alimentos para Animais da China.
O farelo respondeu por 12% a 15% dos ingredientes da ração no período. O mesmo ocorreu no óleo. Com a soja mais barata, o óleo de soja se tornou o óleo comestível mais barato entre os principais óleos do mercado chinês e ganhou espaço sobre palma, canola e girassol. As importações chinesas de óleos comestíveis caíram cerca de 30% entre 2022 e 2025, e a China se tornou exportadora líquida de óleo de soja pela primeira vez em 2025. Isso mostra que a soja importada continuou encontrando demanda porque a queda dos preços ampliou sua competitividade no mercado chinês. O Ministério da Agricultura da China atribui a projeção de queda nas importações a três fatores: menor consumo de óleos comestíveis por consumidores preocupados com a saúde, redução do uso de farelo na ração e expansão da produção doméstica. Esses vetores existem.
Pode-se citar a queda da taxa de natalidade, o envelhecimento da população, a desaceleração da economia e a leve redução do consumo per capita de óleos comestíveis, de 29,3 Kg para 28,5 Kg entre 2024 e 2025. Ainda assim, esses obstáculos foram superados nos últimos anos pelo efeito da oferta abundante sobre os preços. A dúvida é se esse mecanismo seguirá funcionando com a mesma força em 2026. Os produtores chineses de suínos e aves enfrentam agora as consequências da expansão acelerada do ano passado, favorecida em parte pelo farelo barato. Os preços da carne suína caíram 25% desde fevereiro, e os do farelo de soja recuaram cerca de 12% desde o fim de março. Com prejuízos relevantes, os criadores estariam reduzindo plantéis e economizando no uso do insumo. O aumento da oferta de farelo pode pressionar os preços para baixo ainda mais. Do lado da oferta, a pressão continua vindo do Brasil. Diversas agências projetam exportações brasileiras entre 113 e 116 milhões de toneladas em 2026.
Nos três primeiros meses do ano, a China seguiu como principal destino, embora sua participação nas exportações brasileiras tenha caído 7% na comparação anual. Em março, as chegadas de soja à China caíram para 4 milhões de toneladas, menor nível da temporada, com apenas 1,4 milhão de toneladas provenientes do Brasil, em meio aos atrasos provocados por restrições fitossanitárias. Para abril e maio, a expectativa é de desembarques entre 9 milhões e 11 milhões de toneladas mensais, acompanhando o avanço da safra brasileira. Apesar das margens estreitas ou negativas no esmagamento, não há sinal de reversão nas compras. Tudo indica que os compradores chineses voltaram a adquirir soja brasileira em larga escala em 2026. Há ainda a possibilidade de novas compras de soja norte-americana durante a cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping prevista para maio. Permanece incerto o quanto os preços podem cair ainda mais na China e o que seria necessário para reverter o crescimento das importações. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.