08/Oct/2026
A China deve reduzir gradualmente a dependência de soja importada, mas uma queda acentuada das compras até 2030 é considerada pouco provável pelo Insper Agro Global. Estudo apresentado pelo instituto aponta que a necessidade de importação chinesa poderá ficar entre 92 milhões e 118 milhões de toneladas em 2030, ante 115 milhões de toneladas em 2025, dependendo do cumprimento das metas oficiais e do ritmo de crescimento da produção de ração. O Brasil respondeu por cerca de 70% das importações chinesas de soja em 2025, enquanto a China absorveu aproximadamente 70% das exportações brasileiras do grão. A necessidade de importação chinesa resulta da diferença entre consumo doméstico de 136 milhões de toneladas e produção interna de apenas 21 milhões de toneladas, mantendo o país como principal mercado global para a oleaginosa. A estratégia chinesa para reduzir a dependência externa está estruturada em três frentes: aumento da produção doméstica, redução da participação do farelo de soja na alimentação animal e mudança do padrão de consumo, com maior utilização de proteínas alternativas.
Entre essas iniciativas, a redução do uso de farelo de soja na ração apresenta o avanço mais significativo, enquanto a alteração do perfil de consumo é considerada a mais lenta. Carne vegetal e carne cultivada em laboratório ainda enfrentam limitações relacionadas aos preços e à aceitação dos consumidores. Na formulação da ração animal, a participação do farelo de soja recuou de 17,9% em 2017 para 13,7% em 2024, enquanto a meta do governo chinês é reduzir esse percentual para 10% em 2030. A redução da utilização de farelo por tonelada de ração, entretanto, não implica necessariamente queda das importações de soja. Com participação de 11,7% do farelo na ração, os ganhos proporcionados pela menor utilização podem ser anulados caso a produção de ração cresça mais de 4% a 5% ao ano. Na produção agrícola, mesmo com o cumprimento da meta de produtividade prevista até 2034, a produção chinesa de soja chegaria a aproximadamente 28 milhões de toneladas, volume suficiente para cobrir cerca de um quinto do consumo atual.
A expansão da produção doméstica, portanto, teria capacidade limitada para substituir as compras externas no horizonte analisado. Os quatro cenários elaborados pelo Insper combinam dois fatores: estabilidade da produção de ração ou crescimento à taxa observada recentemente, além do cumprimento integral das metas oficiais ou apenas das metas consideradas viáveis pelos pesquisadores. No cenário de ração estável e cumprimento integral das metas, a necessidade de importação cairia 20%, para 92 milhões de toneladas em 2030. Esse cenário é considerado de baixa probabilidade devido ao elevado grau de exigência das premissas. No cenário de crescimento da produção de ração à taxa recente e cumprimento das metas consideradas viáveis, a necessidade de importação chegaria a 118 milhões de toneladas, alta de 2% ante 2025. Os pesquisadores ponderam que o crescimento da produção industrial de ração pode superestimar a expansão do consumo total de soja.
Considerando outra base de dados, o intervalo projetado para 2030 ficaria entre 85 milhões e 103 milhões de toneladas. A capacidade de a China reproduzir na agricultura os ganhos obtidos em setores como veículos elétricos, baterias e energia solar também apresenta limitações. O modelo de coordenação central, crédito direcionado e estímulo à inovação enfrenta restrições maiores no setor agrícola devido aos ciclos biológicos, à ocorrência de pragas e à escassez de água. Metas de produção e produtividade anunciadas pelo Ministério da Agricultura da China nem sempre são alcançadas, reduzindo a possibilidade de uma expansão acelerada da oferta doméstica de soja. O cenário também diverge de projeções mais pessimistas para as importações chinesas. Estudo da Systemiq aponta potencial de queda de 25% nas compras externas de soja.
A avaliação do Insper considera esse resultado pouco provável por depender de ganhos de produtividade superiores aos considerados factíveis e da adoção de proteínas alternativas em escala significativa. Para o Brasil, a perspectiva mantém a China como mercado central para a soja no horizonte até 2030, embora com menor potencial de expansão contínua. A redução gradual da dependência chinesa de importações deve ocorrer, mas a elevada diferença entre consumo e produção doméstica, as limitações para expansão da produtividade e o crescimento da demanda por ração tendem a preservar volumes elevados de compras externas. O principal desafio para o Brasil passa, portanto, de capturar uma expansão permanente da demanda chinesa para preservar participação em um mercado que continuará sendo estratégico, mas com crescimento potencialmente mais limitado. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.