28/Oct/2026
Segundo a Barchart, a queda dos contratos futuros de soja na Bolsa de Chicago, registrada após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), foi uma reação exagerada de investidores especulativos, sem correspondência com uma mudança nos fundamentos do mercado global. A intensidade do movimento é atribuída à liquidação de posições financeiras e à possível atuação de sistemas automatizados de negociação. O resultado eleitoral não alterou de forma relevante as relações comerciais entre Brasil, China e Estados Unidos, mantendo a vantagem brasileira no fornecimento da oleaginosa ao mercado chinês. Há dúvidas se a interpretação de que a desvalorização do Real após a eleição teria estimulado uma onda de vendas de soja brasileira, pressionando as cotações internacionais.
Embora o dólar mais alto aumente a receita dos exportadores em moeda nacional, os indicadores do mercado futuro não apontaram uma pressão comercial compatível com uma oferta excepcionalmente elevada do grão brasileiro. Como referência, pode-se citar a diferença entre os contratos futuros de janeiro e março de 2027 em Chicago. Na segunda-feira, 26 de outubro, o intervalo aumentou apenas US$ 0,01 por bushel, com o vencimento de março acima do contrato de janeiro. Esse diferencial correspondia a aproximadamente 32% do custo teórico de armazenagem da soja até o vencimento seguinte. O comportamento do indicador não demonstrou a pressão de venda que seria esperada caso os produtores brasileiros estivessem direcionando volumes excepcionalmente elevados ao mercado.
Parte da intensidade da queda é atribuída à atuação de investidores especulativos. Mercados de apostas sobre o resultado eleitoral indicavam maior probabilidade de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL), e o resultado contrário provocou uma reação dos participantes financeiros. Sistemas automatizados de negociação também podem ter ampliado o movimento ao reagir a manchetes que apresentavam a vitória de Lula como uma surpresa. Os dados de posicionamento dos fundos também indicam potencial para novas vendas. De acordo com a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), investidores não comerciais mantinham posição líquida comprada de 246.596 contratos futuros de soja em 20 de outubro, redução de 24.503 contratos em uma semana.
Apesar do recuo, o volume permanecia próximo do recorde recente de 281.581 contratos, registrado em 22 de setembro. A manutenção de uma posição comprada elevada significa que os fundos ainda concentravam apostas na valorização da oleaginosa, que poderiam ser liquidadas caso a tendência de queda persistisse. A avaliação é e que a eleição brasileira não alterou a disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos pelo mercado chinês. Segundo os dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a diferença entre os embarques dos dois países aumentou de 0,5 milhão de toneladas ao fim da safra 2014/15 para 73,2 milhões de toneladas no encerramento da temporada 2025/26, em agosto de 2026. A ampliação da vantagem brasileira ao longo da última década foi associada, entre outros fatores, às mudanças comerciais decorrentes da guerra tarifária entre Estados Unidos e China, iniciada em 2018.
Nas estimativas de outubro do USDA, as exportações brasileiras de soja alcançariam 118 milhões de toneladas na temporada 2026/27, ante 46,1 milhões de toneladas dos Estados Unidos. As importações chinesas estão projetadas em 115 milhões de toneladas. Para o analista, os números refletem uma transformação estrutural dos fluxos comerciais, que não depende apenas das oscilações cambiais ou de mudanças políticas pontuais. Apesar de considerar exagerada a reação associada ao resultado eleitoral, há fatores concretos de pressão sobre os preços. Nos Estados Unidos, a melhora das condições climáticas no Meio Oeste e nas Grandes Planícies acelerou a colheita, ampliando a disponibilidade de soja recém-colhida.
Os produtores norte-americanos tendem a armazenar milho nas propriedades e comercializar soja, o que aumenta a oferta da oleaginosa nesta época do ano. No Brasil, condições climáticas mais favoráveis ao plantio da safra 2026/27 também reduziram parte das preocupações com a produção. Esses fatores contribuem para explicar a pressão sobre as cotações em Chicago, mas não sustentam a interpretação de que a reeleição de Lula tenha provocado, por si só, uma mudança no equilíbrio do comércio mundial de soja. A evolução dos preços dependerá também do posicionamento dos fundos, do ritmo da oferta norte-americana e das condições de desenvolvimento das lavouras brasileiras. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.