28/Oct/2026
De acordo com estudo da AgResource, elaborado com base em 21 anos de preços de exportação e 20 safras de estimativas de área da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a desvalorização do Real após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não tornou a soja brasileira mais barata que a norte-americana e não deve ampliar a área plantada no Brasil na safra 2026/27. A formação dos preços brasileiros acompanha as cotações internacionais, e o enfraquecimento da moeda eleva a remuneração em Reais, estimula a comercialização e pode pressionar os futuros negociados na Bolsa de Chicago. O levantamento foi divulgado após a vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), no domingo (25/10). O dólar, que encerrou a sessão de sexta-feira (23/10) a R$ 4,99, chegou a R$ 5,60 na manhã de segunda-feira (26/10) e recuou para R$ 5,46. Os valores representaram altas de 12,3% e 9,5%, respectivamente, em relação ao fechamento anterior. A variação de aproximadamente 7% mencionada em parte das análises considera como referência o dia 2 de outubro, antes do primeiro turno das eleições.
A comparação dos preços de exportação da soja brasileira e norte-americana entre março de 2005 e setembro de 2026 identificou uma associação entre a desvalorização do Real e a redução das cotações em dólares nos dois países. Uma queda de 10% no valor da moeda brasileira esteve associada a recuos de 6,5% nos preços brasileiros e de 6,7% nos norte-americanos. A diferença entre as cotações dos dois países não apresentou alteração estatisticamente significativa, indicando que o câmbio, isoladamente, não confere vantagem de preço à soja brasileira em relação à concorrente dos Estados Unidos. A dinâmica é explicada pela integração do mercado internacional. A soja é comercializada em dólares, com referência nos contratos futuros da Bolsa de Chicago, enquanto grandes tradings compram o produto em diferentes países. Com a valorização do dólar frente ao Real, os produtores brasileiros passam a receber mais pela conversão da receita externa e podem acelerar as vendas. Como o Brasil responde por 61% das exportações mundiais de soja, o aumento da oferta disponível pode pressionar as cotações internacionais, inclusive as norte-americanas.
Pesquisa da Universidade de Illinois estima que uma desvalorização de 1% do Real reduz em cerca de 0,5% os preços futuros da soja em Chicago no intervalo de uma semana. O ganho de receita dos produtores brasileiros tende, portanto, a ser inferior à variação cambial. Uma desvalorização de 10% do Real está associada a uma elevação de 3,5% a 5% no preço da soja em moeda brasileira, porque parte do efeito do câmbio é compensada pela queda das cotações em dólares. Além disso, aproximadamente 40% dos custos de produção, especialmente fertilizantes e defensivos, estão vinculados à moeda norte-americana, o que limita o benefício líquido para os produtores. Caso o dólar permaneça próximo de R$ 5,50, em média, entre outubro de 2026 e setembro de 2027, a participação brasileira nas exportações mundiais poderá aumentar cerca de 0,5%, equivalente a 1 milhão de toneladas. Esse avanço, porém, tenderia a ser revertido no ano seguinte, indicando que o efeito cambial sobre a competitividade exportadora pode ser temporário.
Para a área plantada em 2026/27, o estudo não identificou relação estatisticamente significativa entre a desvalorização do Real durante o período de semeadura e o aumento da área final em relação à primeira estimativa da Conab. A análise abrange 20 safras, de 2006/07 a 2025/26. Em 2008, quando a moeda brasileira perdeu cerca de 21% de seu valor durante o plantio, a área efetivamente cultivada ficou ligeiramente abaixo da estimativa inicial. Para a oscilação cambial observada neste ano, o efeito central calculado sobre a área é zero, com intervalo de incerteza de aproximadamente 400 mil hectares para mais ou para menos. O calendário de aquisição de insumos ajuda a explicar a baixa influência imediata do câmbio sobre as decisões de plantio. Até o início de setembro, cerca de 90% dos fertilizantes e mais de 80% das sementes já haviam sido comprados. Em 22 de outubro, o plantio de soja alcançava 40% da área nacional e, no dia 23 de outubro, chegava a 76% em Mato Grosso. A Conab estimou a área brasileira em 49,3 milhões de hectares, aumento de 1,4% em relação à temporada anterior.
A AgResource projeta que a área final poderá se aproximar de 49,6 milhões de hectares, sem atribuir eventual revisão à desvalorização do Real após a eleição. Os efeitos do câmbio poderão ser mais relevantes para a safra seguinte. Se o dólar permanecer próximo de R$ 5,50 entre março e agosto de 2027, o modelo estima acréscimo de cerca de 600 mil hectares na área plantada no fim daquele ano em relação a um cenário sem esse estímulo cambial. Com dólar médio de R$ 6,00, o aumento estimado chega a 1,4 milhão de hectares. Os cálculos isolam o impacto do câmbio e não incorporam possíveis mudanças nos preços internacionais ou nos custos de produção. As relações identificadas na série histórica representam associações estatísticas, e não uma comprovação isolada de causa e efeito. A valorização global do dólar, por exemplo, pode enfraquecer o Real e pressionar simultaneamente os preços internacionais das commodities. Para a safra 2026/27, a principal consequência da oscilação cambial tende a ocorrer sobre os preços e a comercialização, e não sobre a área já em implantação. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.