08/Oct/2026
As interrupções nos embarques de grãos na região do Mar Negro, iniciadas em meados de 2026, elevaram as cotações internacionais do trigo aos maiores níveis em cerca de três anos. Apesar da valorização, a reação do mercado global permanece limitada pela oferta confortável e pelo enfraquecimento da demanda, segundo análise do Sistema de Informação do Mercado Agrícola (Amis) e do Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares (IFPRI). Desde meados de julho, os preços avançaram, mas permanecem cerca de um terço abaixo dos recordes registrados no início de 2022, indicando maior previsibilidade dos agentes diante dos atuais gargalos logísticos. A menor volatilidade ocorre em um cenário de estoques globais elevados e perspectivas favoráveis para a produção em origens concorrentes. A demanda importadora perdeu força, com os embarques mundiais de trigo acumulando retração de cerca de 11% entre julho e agosto, na comparação anual, equivalente a uma redução de quase 3 milhões de toneladas.
Compradores tradicionais, especialmente no Norte da África, postergaram novos contratos para utilizar estoques próprios enquanto acompanham a colheita no Hemisfério Sul. Entre os fatores monitorados estão a produção da Austrália, a evolução do El Niño e a possibilidade de aumento das exportações da Índia caso os preços internacionais favoreçam o comércio. As alternativas logísticas disponíveis compensam apenas uma parcela da capacidade perdida no Mar Negro e apresentam custos mais elevados. A Ucrânia ampliou o escoamento por ferrovias e pelo corredor do rio Danúbio, que movimenta cerca de 1 milhão de toneladas por mês e pode atingir 1,3 milhão de toneladas até o fim de 2026. O volume, entretanto, permanece muito abaixo das 7 milhões de toneladas mensais historicamente embarcadas pelos portos da região de Odessa.
As restrições logísticas já resultaram em redução acumulada de 6,5 milhões de toneladas nas exportações globais de trigo até o fim de setembro. O déficit poderá alcançar até 17 milhões de toneladas até dezembro, caso os gargalos permaneçam. A diferença entre a capacidade historicamente utilizada no Mar Negro e os volumes que conseguem ser direcionados por rotas alternativas mantém a logística como um dos principais fatores de sustentação das cotações internacionais. A persistência dos gargalos também pressiona as margens dos produtores locais, diante do acúmulo de grãos e da redução dos preços recebidos nas propriedades. Na Ucrânia, o excedente exportável da safra 2026/27 é estimado em mais de 53 milhões de toneladas, enquanto os embarques efetivos devem ficar em torno de 30 milhões de toneladas. A diferença exige elevada capacidade de armazenagem e reproduz uma dinâmica semelhante à observada na Rússia.
O acúmulo de estoques nas regiões produtoras aumenta os custos associados à armazenagem e ao transporte e reduz a capacidade de comercialização dos agricultores. Caso a rentabilidade permaneça comprometida pela combinação de preços e custos elevados de frete, decisões relacionadas ao plantio, ao uso de fertilizantes e aos investimentos no próximo ciclo poderão ser afetadas. Assim, embora os gargalos do Mar Negro sustentem os preços internacionais do trigo, a oferta global ainda confortável e a demanda importadora mais fraca limitam o potencial de uma recuperação mais intensa das cotações. Ainda, a Ucrânia retomou ataques contra navios mercantes ligados ao tráfego russo no Mar Negro, após uma pausa de um mês, elevando os riscos logísticos na região, segundo relatório da consultoria SovEcon. Diante da ausência de um acordo de cessar-fogo, a empresa revisou suas premissas e passou a projetar que as exportações de grãos pelos mares Negro e de Azov continuem abaixo do normal até 2027.
O intervalo de 33 dias sem ataques ucranianos terminou em 27 de setembro, quando o cargueiro Aroyat, de operação turca, foi atingido perto de Novorossiysk. Em paralelo, a Rússia manteve ataques contra a infraestrutura portuária na Grande Odessa e contra embarcações nas proximidades. Os riscos também avançaram sobre rotas alternativas de escoamento da Ucrânia. Em 30 de setembro, a infraestrutura portuária de Izmail foi atacada. Em 5 de outubro, o navio Royad Mammadov, que transportava milho de Izmail para a Itália, pegou fogo na costa da Romênia, com morte de dois tripulantes. Em 6 de outubro, duas embarcações mercantes foram atingidas por drones na Zona Econômica Exclusiva da Bulgária. As exportações combinadas de trigo de Rússia e Ucrânia somaram 8 milhões de toneladas no primeiro trimestre do ano comercial (julho a setembro), queda ante 16,2 milhões de toneladas embarcadas em igual período da safra anterior. O volume é o menor para o primeiro trimestre desde 2010/11. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.